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26 de fev de 2016

As mulheres de sexta - 1º conto






Corina

Era verão, o calor fazia a pele grudar nas roupas, ainda que finas; mas seu coração lhe dava frio. Havia duvidas e medos, e assim como estava feliz, sentia-se em uma corda bamba. Não, já não era mais forte para aguentar os baques da vida. Ela queria apenas repousar, uma vez que fosse. Não estava entendendo qual era a graça da vida em zombar dela. Ela queria não sentir nada. O cérebro pensava, rápido como sempre, então ela estremeceu. Parecia que o fim havia começado, mas ela estava só no meio.

Os olhos lacrimejaram, e ela não saiu de onde estava; havia tanto pra fazer que não podia se dar ao luxo de chorar escondida. Nada podia, a não ser esperar que o acaso decidisse por ela. A alma retorcia-se dentro dela, gritava seu próximo passo. Ela hesitava. Secou os olhos, como pode. Olhou as palavras infinitas a sua frente e tentou junta-las. Um esforço suave de ver sentido no mundo. Naquele instante, não havia... 

Ela queria poder não falar e deitar-se. Ficar entregue ao torpor de seu sono e não mais ter que falar, na verdade, por mais estranho que fosse ela não gostava de falar. Sentiu saudades da infância quando podia passar longos períodos sem pronunciar um único som. Aliás, os sons daqueles dias eram perturbadores, sufocantes. 

Olhou em volta, sempre há olhares curiosos quando alguém chora. A fragilidade chama atenção mais que gritos. Aprumou-se na cadeira e escreveu uma longa carta, as palavras formavam frases, mas não tinham coerência; insistiu mesmo assim. Uma lágrima, teimosa, burlou a barreira de mãos que as impediam de cair, e atirou-se no papel borrando a tinta.

Finalizou seu escrito. Sob os olhares curiosos levantou-se devagar, foi até a janela, abriu! O vento forte, no 25° quinto andar, entrou como um furacão espalhando os papéis sobre a mesa. Ela respirou fundo, deixou o ar invadir e renovar seus pulmões. Nem sequer olhou os colegas de trabalho.

Atirou-se! Era hora de parar!

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