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4 de mar de 2016

As mulheres de sexta - 2° conto




Lucia.



 Era noite de sexta-feira quando ela olhou o cinto de couro marrom esticado na porta do armário. Um frio correu-lhe pela espinha, e uma imensidão de pensamentos passou por sua cabeça.
O Relógio batera 18 horas, o maldito relógio que lhe dizia com batidas sonoras cada hora que passava. Ela andou silenciosa pela casa, olhando os cantos, os quadros, as moveis. Conhecia tão bem aquela casa que se não enxergasse andaria sem medo por cada cômodo, Alias, fazia isso regularmente, caminhava em total silencio e no escuro.
Parou no meio do quarto, aquele cômodo era aterrorizante. Era triste olhar para aquelas paredes, aquele piso, aqueles moveis...
O ar começava a deixar seus pulmões, estava nervosa. Sentia a mãos suaves e o corpo tremer de leve. A cabeça lhe pesava. Por um instante viu toda sua vida em flashs. Lembrou-se da infância pobre, mas feliz. Sua família sempre fora de amor, seus pais estavam juntos há mais de 40 anos e sempre foram apaixonados. Uma tristeza profunda a tomou.
Não tinha mais nada de seu, perdera o filho antes de nascer, desistirá dos estudos, sairá do emprego, mal via a luz do sol... havia um misto de tristeza e raiva que fazia cada pedaço do seu corpo doer.
Respirou fundo e pode sentir o cheiro do café recém-passado e da janta feita.
Ouviu a maçaneta se mover e um terror lhe dominou, sabia que havia chegado a hora. Queria correr, gritar... Mas permaneceu em silencio, parada no meio do quarto, olhando a cama a sua frente e odiando as lembranças que tinha dela.
Ouvia os passos pesados pela casa e a respiração forte. Ouviu o barulho das panelas, o café ser servido e sorvido num gole só. Ouvia a geladeira ser aberta e fechada e depois o silencio.
Seu corpo doía em cada poro. O silêncio era tão ou mais assustador que a gritaria cotidiana. Ela sabia, sabia como seria. Ele a encontraria, a chamaria de todos os nomes que julgasse justo, a humilharia, ela choraria, isso afetaria muito mais a raiva dele, ele ia lhe bater, com força, com toda a força que ele tinha, ela ia sangrar, ia cair, seria atirada na cama e estuprada. Era assim, dia a dia, todo dia por semanas, meses, anos...
Ouviu o cinto ser puxado...
Ouviu a porta se abrindo...
Ouviu a respiração dele...
Ele se aproximou tal qual um animal, circulou, queria olhar nos olhos dela.
Ela tremia dos pés a cabeça, e respirava apresada.
Ele encostou seu rosto ao dela, e ela estava apavorada, ele sorriu e seu rosto se contorceu numa careta de dor.
Ela já não pensava, fincará a faca em sua barriga repetidas vezes, não chorava, não falava, ele agarrou seu braço e deslizou por ele sem forças para outro movimento que não fosse cair. Ela esperou que ele chegasse ao chão, e num golpe quase de misericórdia, cravou a faca em seu peito.
Olhou pra ele uma ultima vez, saiu do quarto escuro e sentou-se no sofá. Acendeu um cigarro, que era dele, tragou longamente. Era chegada a hora. Ela pegou o telefone, discou o numero, deu seu endereço e pediu que a viatura não demorasse. Deitou-se no sofá.

Estava livre! Acabara sua agonia. Ela era forte. Sentia a liberdade entrar em seu corpo e adormeceu.

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